domingo, 3 de fevereiro de 2013

Norte pioneiro - Fábrica de revelações", Matsubara agoniza no abandono

Albari Rosa/ Gazata do Povo / Centro de Treinamento de Cambará, modelo na formação de atletas. Hoje símbolo da morte do Matsubara 

O espólio da mais famosa fábrica de jogadores do estado divide espaço com sofás, mesa de centro, cristaleira, mesa de jantar, impressora e escrivaninha. Entre o escritório, a sala de estar e a sala de jantar de sua casa, Sueo Matsubara empilha os troféus conquistados ao longo de três décadas pelo time batizado com o sobrenome da família. Qua­­se todos de categorias de base. 
Dono de uma estrutura re­­­­­­vo­­­­lu­­cionária quando inaugurada, o time alviverde de Cambará espalhou pelos gramados inúmeras de suas revelações, do pacotão rubro-negro Jorge Luís-Tico-Ratinho ao atacante de Copa do Mundo Nilmar; dos irmãos Jean Carlo e Sidclei ao ex-zagueiro santista To­­ninho Carlos.
Hoje, o Matsubara é uma pálida imagem desse passado. A Vila Olímpica, primeiro centro de treinamento do país, está sendo demolida. O Estádio Olímpico Regional é pivô de uma ação judicial em que o clube é réu da própria torcida. O time profissional vem de um ano de inatividade após três temporadas na terceira divisão estadual. Reabrir as portas, só com o apoio de um investidor que dificilmente existirá.
Com o time trazido da vi­­zinha Bandeirantes – empres­­tada pelo ‘co-irmão’ União – e o dinheiro das fazendas de algodão mantidas pela família, o Matsubara venceu a Segundona em 1976 e, no ano seguinte, estreou na primeira divisão esta­­dual com um animador séti­­mo lugar. O time mandava seus jogos no acanhado está­­dio Santana. Recebeu da Federação Paranaense permissão para jogar ali por um ano. A exigência por uma casa nova desencadeou um caso único no futebol: uma torcida construir um estádio para o próprio time.
“Eramos uma torcida de bandeira até 1977. No ano seguinte, montamos uma comissão de arrecadação. Com rifa, doação e venda de cadeira cativa, conseguimos, em um ano e meio, levantar o dinheiro necessário e construir o estádio”, conta Waldir de Camargo, filho de Vicente de Camargo, o responsável pelas comissões de arrecadação e construção, e atual presidente da Torcida Organizada do Matsubara, a TOM. Única organizada do planeta a ser dona de um estádio.
O Olímpico Regional foi inaugurado em 1980. Abertura que não encerrou o trabalho da TOM. A organizada manteve seu sistema de arrecadação para ampliar as arquibancadas. Usou contatos políticos para comprar e instalar a iluminação. O Matsubara correspondia com boas campanhas e levas de bons jogadores.

“Até que, quando o estádio ficou pronto, eles resolveram ir para Londrina. Foi uma revolta total”, lembra Waldir, sobre as duas temporadas, 1996 e 97, que o Matsubara fixou-se na segunda maior cidade do estado. “Em Cambará, ninguém ia nos jogos, precisávamos de mais arrecadação. Mas Londrina é complicado. Só o Londrina dá certo”, analisa Sueo, que contratou estrelas como Neto e Tadeu para jogar.
Uma conjunção de fatores que fez o Matsubara disputar a primeira divisão estadual pe­­la última vez em 1999. No início dos anos 2000, o clube ainda conseguiu uma sobrevida formando e negociando joga­­dores de velocidade para o Vietnã. Insuficiente para resgatar os bons tempos.
A penúria ajudou a azedar ainda mais a relação com a TOM. Em 2009, quando venceu o contrato de comodato e o estádio foi devolvido pelo Matsubara, a organizada decidiu entrar na Justiça contra o clube. “Entregamos o estádio em perfeitas condições e recebemos todo sucateado, sem fiação elétrica, a cobertura deteriorada”, explica Waldir de Camargo. “Também vamos mudar a razão social da torcida. Não tem mais por que ela carregar o nome do Matsubara. O estádio será rebatizado Regional Vicente de Camargo, em homenagem ao meu pai”, prossegue o presidente da (ainda) TOM e diretor de tributação do município.
Sem o Matsubara nas suas instalações e sem o Matsubara na vizinhança. Localizada no terreno ao lado do estádio, a Vila Olímpica, inaugurada em 1984, foi desativada em outubro do ano passado. Desde então a estrutura vem sendo totalmente desmontada. João Luís Cafu, último massagista do clube, mora em um dos 15 alojamentos com a família e, com o auxílio de um ajudante, retira as telhas que cobrem a estrutura que por anos abrigou jogadores de todas as categorias no primeiro CT do Brasil.
“Não compensa manter uma estrutura daquelas”, jus­­­­tifica Sueo, que ainda sonha com um retorno aos gramados este ano ou em 2014. “Mas tem de ter um patrocinador”, ressalta.
Norio Matsubara, filho e último gestor do clube, prati­­camente sepulta a esperança. “Investidor procura potencial de marketing. Não temos bilheteria, não há interesse da região, não há uma massa crítica. Quem vai querer investir?”, questiona, com a certeza de que a história do Matsubara se resumirá aos troféus empilhados na casa do seu pai.


gazetadopovo

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